África, Marrocos, Marrocos, as cores quentes de África

Mazagão (El-Jadida), Marrocos

25/09/2011

Dou por mim a sussurrar a “Queda do Império”, do Vitorino. Entoo a música só pra mim e sorrio quando chega a parte do “pau de canela e Mazagão”. Vir aqui e não guardar alguns segundos para pensar na ascensão e queda da epopeia quinhentista, é quase como ir a Roma e não ver o papa. Estou em Mazagão, em El-Jadida, “a nova”.

Cisterna Manuelina de Mazagão (El-Jadida)

Entro com um misto de espanto e de ansiedade na “Cité Portugaise”. Ao fundo desta rua, para já sem nome, esconde-se uma maravilha da arquitectura e do engenho quinhentista – a cisterna manuelina. Atravesso a rua quase sem reparar nos vendedores que me interpelam, ignoro completamente a Igreja da Assumpção, quero vê-la…

Entrada na fortaleza portuguesa de Mazagão…

Mazagão, ou como agora se chama, El- Jadida, foi durante séculos um importante interposto comercial. Situado a poucos km da foz do rio Morbeia, Mazagão foi também um importante ponto de passagem na valiosa rota marítima para Índia. Reconhecendo o valor estratégico deste local, em 1506, D. Manuel I doa a povoação de Mazagão a Jorge de Melo, sob compromisso deste construir uma fortaleza que protegesse a povoação.

Em 1513, é fundada como interposto comercial e torna-se, a custo de um investimento extraordinário da coroa portuguesa, no último dos bastiões portugueses a cair em Marrocos. Não é para admirar, atendendo à importância que revestia na defesa dos barcos da rota do cabo, alvo constante de ataques.

Em 1541, D. João III manda demolir a estrutura antiga e encarrega o mais engenhoso arquitecto quinhentista de construir uma nova: João de Castilho. João de Castilho, ajudado por 1500 homens, diz-se, construiu a fortaleza de Mazagão em 2 meses. Será possível?

Explicando a influência portuguesa em Mazagão…

Entro na cisterna, depois de apreciar a maqueta da “cité portugaise”. O ambiente é extraordinário. O aspecto gótico da cisterna, e a fina película de água que reflecte as cores dos seus arcos, dá ao cenário uma beleza inigualável, diria, mística (esquema da cisterna). Não admira que a cisterna tenha sido escolhida como cenário para inúmeros filmes, entre eles o conhecido Otelo, de Orson Welles.

Entre vielas vazias, iguais a tantas outras em Marrocos, procuramos caminho para subir à fortaleza. Somo subitamente invadidos por um agradável odor a pão cozido.

 

Esta espécie de padaria comunitária funciona mesmo por baixo da fortaleza e, disse-nos o seu encarregado, fora construída pelos portugueses. Consiste num pequeno forno onde, quem quiser, por um preço tabelado, pode vir cozer o seu pão, pizzas ou outros alimentos. Comprámos uma dezena de pães marroquinos. Começo a ficar adicto a este pão.

Subimos à muralha, sinto por baixo de mim o peso de 5 séc e que que o tempo parece não conseguir apagar. Esta fortificação é emblemática, sendo a primeira fortificação portuguesa abaluartada, que facilmente se vê, ainda hoje, através dos satélites do Google

Fortaleza de Mazagão

Fortaleza de Mazagão

Em 2004, a UNESCO reconhece as fortificações portuguesas de Mazagão, como património da Humanidade.

Estou contente, deixo Mazagão, como gosto de lhe chamar, com um sorriso nos lábios.

Diferente foi a partida daquelas 300 famílias que em 1769, no reinado de D. José I tiveram de abandonar Mazagão para sempre, sucumbindo ao cerco imposto por Sidi Mohammed Abdallah. E com o abandono das 300 famílias da nobreza, Portugal abandonava definitivamente o Norte de África. Mas nasceu uma nova cidade, Vila Nova de Mazagão, na Amazónia, próximo da grande ilha de Marajó.

Estive num dos locais que mais ansiava por conhecer aqui, em Marrocos. Sei agora que não irei a Alcácer-Quibir, terá de ficar para outra viagem e outro tempo.

Apetece-me dizer com Camões:

Oh! ditosos aquelles que puderam 
Entre as agudas lanças africanas
Morrer, em quantos fortes sustiveram
A Santa Fé nas terras Mauritanas;
De quem feitos ilustres se souberam,
De quem ficam memórias soberanas,
De quem se ganha a vida com perdel-a,
Doce fazendo a morte as honras d´ella!

Lusíadas, VI:LXXXIII

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