Bragança, Parque Natural de Montesinho, Parques Naturais, Portugal

Montesinho e gentes da terra fria

26/06/2013

Montesinho tem destas coisas, é amor à primeira vista.

É verde e ondulante! Genuíno e xistoso. Uma incursão nestes montes é como regressar às origens, da terra e do homem. É sentir a terra nua e crua. É sentir o sotaque na voz dos velhos e o desejo de partida na face dos novos.

Com sorte o viajante ainda ouve o uivar do lobo, o voo rasante da águia-real e o correr esquivo do corço.

Encravado lá longe, no nordeste transmontano, Montesinho é terra fria no inverno e inferno no Verão. Afinal, como se diz por cá são “nove meses de inverno e três de inferno”.

Foi terra de contrabandistas e terra de mineiros. Foi terra de agricultores, exploradores e aventureiros. Hoje, esta terra recebe-nos, de braços abertos. Não como a mãe que recebe o filho que regressa à terra, mas como o viajante que encontra lugares onde vale a pena, vale mesmo a pena, ficar um pouco.

Este inferno recalcado na tez queimada das pessoas é sinal dos tempos, esses que foram e que teimam em não regressar jamais.

 

Parque Natural de Montesinho, alto de Ciradelha

 Alto de Ciradelha (Vinhais)

Os Meus Trilhos no Parque Natural de Montesinho

Há anos que queríamos sentir os odores da terra fria, percorrer a serra da Coroa e de Montesinho, cruzar os rios e lameiros e desaguar em Rio de Onor.

Mas agora fizemos mais do que isso. Subimos ao alto de Ciradelha, depois de andarmos entre animais no Parque Biológico de Vinhais. Lá bem no alto, sentados no granito rugoso, respirámos o ar fresco dos dias frescos do início de Verão. Ao fundo, Vinhais acorda da letargia matinal. Não é tempo de castanha, não provamos o fumeiro nem sentimos o seu cheiro.

Seguimos caminho, entre vales profundos e lameiros encharcados. A D. Judite, fiel guardadora dos Fornos de cal de Dine, falou-nos da sua juventude, dos fornos e dos tempos em que se sentia a  azáfama por estas  bandas.

Vimos o por do sol e assentámos arraiais em Gondesende. A aldeia de xisto é fria à noite e a sua quietude aconchega-nos.

Despertámos com as galinhas, como por aqui se diz. Repasto farto e já estávamos novamente na estrada. Por estradas sinuosas subimos ao ponto mais alto do Montesinho. Daqui vê-se muito, parece que se vê todo o mundo. Seguindo a linha raiana, fomos até lá longe. Sulcamos as terras que pertencem aos lobos, atravessámos o Rio Sabor e a Ribeira das Igrejas, desaguámos em Rio de Onor.

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A D. Judite e a Sandra nos fornos de cal de Dine

Aqui, um castanheiro divide uma terra entre dois países, criou o povo de acima e o povo de abaixo. Mas não dividiu as pessoas. Agora, juntam-se do lá do cá da fronteira, jogam uns riscos de sueca e bebem umas cervejas frescas. Esta terra é de todos, dos de “cima” e dos de “abaixo”.

Não são os lugares mas os sentimentos, são as pessoas e as suas histórias. Com o sol já a baixar entre os montes, deixámos a comunidade de Onor. De Guadramil fomos até Quintanilha. Começámos a ver montesinho pelo retrovisor, mas há coisas que não vão, que ficam cravados na mente do viajante.

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São gentes como estas que nos movem, seja aqui,  no nordeste transmontano, seja lá bem longe, do outro lado do mundo.

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1 Comment

  • Reply Parque Biológico de Vinhais - Os meus trilhos 27/06/2013 at 21:06

    […] Parque Natural de Montesinho.  Não conhecíamos o parque e pouco havíamos ouvido sobre o mesmo, aproveitámos a nossa incursão pelo Parque Natural de Montesinho para a primeira paragem. Esta foi a nossa porta de […]

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