Alto Douro Vinhateiro, Guarda, Património da Humanidade, Percursos Pedestres, Portugal

De Barca d’ Alva ao Pocinho, a pé pela Linha do Douro

15/04/2016

Desde que percorremos a pé a Linha do Tua, numa experiência magnífica aqui no blog bem recordada para a eternidade, que ficou o bichinho e o desejo de percorrer as linhas abandonadas que infelizmente povoam Portugal. Apesar do desejo antigo, só agora foi possível voltar a pôr os pés na linha.

Linha do Douro

Apesar de já termos calcorreado estas bandas, por terra e também pelo Rio, a bordo da embarcação Sra da Veiga, havia cá dentro um vazio, um desejo incessante de sentir nos pés o balastro e as traves desta linha icónica.

Veio a oportunidade e nós agarrámo-la de unhas e dentes. Já contámos noutro lado a história que nos trouxe aqui. Este é um post mais técnico, com o percurso, dicas e outras notas importantes para quem quer percorrer a pé uma parte da linha do Douro (portanto, ler até ao fim).

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-29

Apesar de estarmos habituados a caminhadas e trilhos, sabemos que além das botas de sola dura vão ser necessárias muitas pernas para os quilómetros que nos esperam. Afinal, serão aproximadamente 29 km desde Barca D’Alva até ao Pocinho, sempre tendo a linha do Douro como companhia.

Ao longo do percurso é impossível não ficar desolado com o estado da linha. O estado de abandono é evidente, a vegetação tomou conta dos carris em toda a sua bitola. Os barrotes, alguns já desfeitos, foram consumidos pelas agruras do tempo, ficando soterrados numa calma evidente.

linha_2

É uma dor de alma ver esta linha assim, deitada ao abandono. É uma dor de alma saber que não é caso único, que aconteceu o mesmo com a Linha do Corgo, do Tua, do Sabor e por aí fora….

Um pouco de história da Linha do Douro

A Linha do Douro, de bitola ibérica, liga Ermesinde a Barca d’Alva, numa extensão de cerca de duzentos quilómetros. Começou a ser construída em 1875 e, depois de 12 laboriosos anos, foi concluída em 9 de Dezembro de 1887, com a inauguração do troço até Barca D’Alva. No mesmo dia, foi inaugurada a linha desde esta estação até à rede espanhola, em La Fuente de San Esteban. (Fonte: Wikipedia – Linha do Douro)

Por seu lado, o troço entre Pocinho – Côa, no total de 9,061 km foi concluído a 5 de Maio de 1887 e entre Côa – Barca D’Alva, no total de 18,882 km, foi concluído em 9 de Dezembro de 1887.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-51

No seguimento do declínio dos transportes de caminho de ferro no nosso país, agravado pelo encerramento de várias linhas ferroviárias em Espanha, no dia 18 de Outubro de 1988, a circulação termiou entre as Estações de Pocinho e Barca d’Alva, até hoje…

Percurso entre Barca D’ Alva e Pocinho

– Ponte sobre o Rio Águeda (Barca D’Alva) – Km 0

Aqui começa a nossa historia, ou como que diz, o percurso. Por aqui entrou também Jacinto, a caminho de Tormes, conforme Eça descreve em A Cidade e as Serras.

Começamos ainda em Espanha e atravessamos a Ponte Ferroviária que ligava a linha do Douro à rede de ferrovia de Espanha. Reza a lenda que esta ponte terá um pilar oco para facilitar a demolição em caso de guerra.Um pouco mais acima, também no Rio Águeda, a ponte rodoviária internacional, que liga Portugal a Espanha.

01 - Pontes Sobre o Rio Águeda

– Estação Ferroviária de Barca D’Alva – 0.5 km

Continuamos a viagem e poucos metros mais abaixo surge a primeira estação: Barca D’Alva. Hoje, à semelhança de muitas outras, a estação mantém-se firme, mas abandonada. Há por aqui sinais dos tempos idos, daqueles tempos de azáfama de cheiro a óleo e a viajantes.

02 - Estação de Barca D Alva e suas paisagens

– Primeiro Viaduto – 5.3 km

O primeiro viaduto atravessa-se sem dificuldade, em bom estado. Aqui o Rio Douro entra ligeiramente em terra, deixando aqui um pequeno “braço”.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-35

– Túnel de Almendra (91 m) – 7.6 km

Escuro e misterioso, o Túnel de Almedra , um dos dois que atravessaremos nesta viagem e por sinal, o maior.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-3

– Estação Ferroviária de Almendra – 8,6 km

Estação de Almendra? Diz-nos algo este nome, estamos em terras quentes, em terras de azeite e de amêndoa. As amendoeiras são um dos ex-libris da zona, cuja floração pinta de branco as encostas do Douro em final de Inverno.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-41

– Viaduto de 105 m sobre a ribeira de Aguiar – 12.8 km

Aqui termina a Ribeira de Aguiar. Afluente do rio Douro, nasce no concelho de Almeida, junto a Vilar Formoso, e atravessa, de sul para norte, o referido concelho e o de Figueira de Castelo Rodrigo. O seu curso é de cerca de 45 quilómetros.

A ponte que liga as margens é uma das maiores neste percurso e uma das mais imponentes. Apesar de não ser exigente, é necessário tomar cautela na travessia.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-64

– Estação Ferroviária de Castelo Melhor – 13 km

A pouco metros do viaduto sobre a Ribeira de Aguiar, surge a estação de Castelo Melhor. A estação roubou o nome à aldeia de Castelo Melhor que dista a mais de 4 km de distância. Uu caminho estreito, monte acima leva-nos à aldeia muralhada e uma das mais icónicas aldeias da região.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-56

– Túnel de Castelo Melhor (79 m) – 13.8 km

Ali ao virar da esquina e a cerca de 5 km da estação de Côa, a linha presenteia-nos com mais um túnel. O serpenteado do Rio contrasta com o buraco escuro que engole a linha. Do outro lado há mais linha e mais traves para calcar.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-59

– Viaduto sobre o Rio Côa – 19,7 km

Este é o último viaduto que atravessaremos. Estamos agora por cima das águas do Rio Côa que aqui, neste lugar, se funde com o Douro e juntos corre até ao atlântico. O rio Côa nasce nos Fóios (Sabugal) a 1.175 m de altitude, próximo da Serra da Malcata. Percorre cerca de 135 km até desaguar neste lugar a 130 m de altitude. Curioso é o curso deste Rio, consta que é dos poucos rios portugueses que efectuam um percurso na direcção Sul-Norte.

Nas margens do Côa situa-se um importante núcleo de gravuras de arte rupestre. O sítio foi classificado pela UNESCO na sua lista de Património Mundial em 1998.

ponte sobre o Rio Coa_1-1

– Estação de Côa – 20 km

Ao passarmos por este pequeno apeadeiro, sabemos que temos apenas mais 9 km pela frente.  A Estação Ferroviária de Côa servia a localidade de Vila Nova de Foz Côa, entrou ao serviço em 5 de Maio de 1887 e foi encerrada em 1988. Houve em tempos um projeto ferroviário que pretendia ligar esta zona à linha da Beira Baixa, passando por Pinhel e Guarda. E olhem que não foi assim há tanto tempo: 1950. Nunca foi construído, claro, e trinta e poucos anos depois até esta linha estava encerrada.

linha do douro - Barca D Alva - Pocinho-69

– Estação do Pocinho – 29,5 km

Com 30 kms nas pernas e muitas traves calcadas, chegamos ao Pocinho. Aqui termina a a nossa viagem, mas também aqui começa outra. Se nós chegamos, há os que partem. Daqui partem agora os comboios que ligam ao Porto, circulando pelo que resta da linda linha do Douro.

Havia muito mais para dizer, mas seria cometer o pecado de ficarmos aquém do que alinha merece. Só mais uma coisa, calcem as botas, mochila às costas e vão para linha. Vamos proteger o que resta, vamos valorizar um dos mais ricos patrimónios deste país.

chegada ao Pocinho

Por fim, as dicas que faltavam:

  • No total são cerca de 29km. No mínimo são necessárias entre 6 a 7 horas, num trilho com grau de dificuldade média, acima de tudo pela distância e pelo piso irregular.
  • Não há nada que enganar, é só seguir a linha. Contudo, aqui fica o track gravado com o GPS. (Descarregar o Track em GPX Visualizar no Google Mapas)
  • A linha férrea foi desativada na década de ’80, por isso esperem pedras na linha, pedaços sem carris, árvores a crescerem entre as traves e percurso com muita gravilha solta do balastro.
  • Um dos maiores entraves a este percurso deve-se ao facto de não ser circular. Logo é importante providenciar transporte de Castelo Melhor de regresso a Vila Nova de Foz Coa (De Castelo Melhor a Vila Nova de Foz Côa, são cerca de 13 km).
  • Levar botas de sola rígida ou semi-rígida para aguentar o terreno irregular.
  • Não há pontos de água durante todo o percurso, assim que vá munido de água (pelo menos 1,5l por pessoa);
  • Também não há possibilidade de comprar comida, com excepção de Barca D’Alva e do Pocinho. Faça uma reserva de comida par ao dia inteiro, especialmente snack calóricos, frutos secos, etc…
  • Como é óbvio o percurso pode ser feito em sentido inverso.

Todas as fotografias da caminhada

Se quiser dar uma olhadela nas fotos que tirámos quando andámos a percorrer estes trilhos, estão todas aqui, no Facebook e num álbum do Google Photos.

O Filme da Caminhada

(brevemente)

 

Comentários

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3 Comments

  • Reply Joaquim Barros 04/05/2016 at 14:02

    Fiz esse percurso nesse mesmo dia …Parabens pela descricão e pelas optimas fotos .Espero encontralos em junho na linha Vila Real -Régua .Abraço e boas viagens e aventuras.

  • Reply Os meus Trilhos 28/05/2016 at 17:01

    Olá Joaquim Barros, obrigado pela visita. Foi uma caminhada espetacular. Ainda estamos a ver se conseguimos estar no Corgo… vamos a ver… Caso não seja possível, esperemos que aprecie as paisagens trnasmontanas. Abraço

  • Reply Joaquim Barros 28/05/2016 at 17:09

    Os meus Trilhos Gostava de encontra-los ficara para uma proxima . Abraço

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